Textos e imagens
" Memória é a concentração do pensar da lembrança daquilo que, antes de tudo e antes de mais nada, cabe pensar. Esta concentração guarda junto de si e abriga em si o que, sempre e antes de mais nada, permanece e se anuncia como o a-se-pensar em tudo o que anuncia como o vigente e o vigor de ter sido. Memória, o pensar concentrado da lembrança do que cabe pensar, é a fonte da poesia. Por isso, o modo próprio de ser da poesia se funda no pensar. Isto nos diz o mito, ou seja, a saga (HEIDEGGER, 2001, p.118).
O divino e o sagrado na manifestação da dança, vista não nos deuses nem no religioso, mas nas ligações do homem com o mito, nos fala da unidade no âmbito da corporeidade em sua dimensão mais sublime, desponta na dança o estado de graça, pois, torna-se o templo e abrigo do homem, o lugar de abertura. O sagrado não aceita a dicotomia em sua natureza humana, pois é o aberto na plenitude da phýsis , onde as coisas brotam e desabrocham, mas sobretudo onde elas se escondem e repousam.
Neste caso, colocamo-nos diante de uma reflexão frente ao que se pensa sobre a realidade e o mito, muito presente sobre o que se tem visto em relação à corporeidade, quando esta marca algo não contornável, corpo-reunião enquanto narrativa. Então entendemos o mito como narrativa do sagrado, nesse deslocamento da travessia, que não se faz pela descrição dos fatos, nem como registros datados que estejam presos à temporalidade das coisas, mas como o lugar que nos fala da saga, do princípio e do fim em sua circularidade.
Queremos, com isso, pensar na dança o narrar não como um mero contar, em sua linearidade, mas a partir do agir em sua essência como questão, que se mostra na realidade enquanto acontecer poético, e que deixa no corpo o escoar do tempo. "
(CALFA, Maria Ignez. A corporificação na dança. Tese de Doutorado em Letras. UFRJ. 2010

Dança Batuque - Rugendas. 1835
BATUQUE NA UMBIGADA
Douglas Cambrini
" O “Batuque de umbigada” dança originária da África trazida ao Brasil pelos escravos nos navios negreiros na época de colonização e instalada na região do Médio Tietê (Tietê, Porto Feliz, Laranjal, Pereiras, Capivari, Botucatu, Piracicaba, Limeira, Rio Claro, São pedro, Itu, Tatuí) é uma manifestação que vem sendo preservada e transmitida por gerações. Dança que assemelha o movimento do corpo com o axé e a capoeira tem como principal função festejar a fertilidade. O Batuque de Umbigada, também chamado caiumba ou tambu, é uma dança trazida por negros bantos que trabalharam na cultura da cana e do café, em São Paulo. Em Tietê, Piracicaba e Capivari estão os últimos grupos de batuqueiros, sexagenários que se reúnem algumas vezes durante o ano parra tocar, cantar e dançar. “O batuque é uma manifestação em que, junto à batucada, há uma dança na qual um homem e uma mulher encostam seus umbigos como parte da coreografia”, diz Vanderlei Bastos representante dessa tradição cultural. Duas filas se defrontam, uma de mulheres e outra de homens. Perto dos dançadores estão os batuqueiros que soltam as modas, ou seja, cantam as músicas. Na dança são utilizados os seguintes instrumentos: o tambu, uma espécie de tambor feito de tronco oco de árvore; o quinjengue, um tambor mais agudo que faz a marcação rítmica do tambu e nele se apóia; as matracas, que são os paus que batem no tambu do lado oposto do couro e os guaiás, chocalhos de metal em forma de cones ligados. Todos os instrumentos que levam couro, são afinados em uma fogueira, tornando mais mágico e característico o ritual. A fileira dos homens vai até a das mulheres cantando a moda para ensiná-las e após diversos galanteios, os homens vêm trocar umbigada com as mulheres, e ai o baile se inicia. O movimen a visão de que o umbigo é a nossa primeira boca e o ventre materno a primeira casa, a umbigada celebra o momento único em que eles se tocam, um agradecimento ao dom da concepção, uma ação rápida e mágica, materializada através da dança, explica Bastos. As modas, canções do batuque, consistem em uma crônica cantada da comunidade sua história passada e recente, seus valores morais, seu entorno social. Criadas no repente ou buscadas nas tradições, elas tecem comentários acerca de pessoas e fatos conhecidos pelo grupo, servindo-se de uma linguagem rica em metáforas:
“Salve a princesa Isabel, Salve a princesa Isabel Ai que beleza Nego comia no coxo, nego comia no coxo Agora come na mesa Já acabou a escravidão, já acabou a escravidão Ai que beleza Nego comia no coxo, nego comia no coxo Agora come na mesa Trabaia eu não eu não, Trabaia eu não eu não Trabaio não tenho nada, só tenho calo na mão O meu patrão ficou rico, e nói fiquemo na mão”
Muito freqüente é a temática do amor e do relacionamento conjugal. Outros assuntos são memórias do cativeiro, a resistência e crítica ao racismo e outras formas de opressão social e política e louvações. Nas louvações, as almas dos ancestrais revivem junto às entidades espirituais do panteão umbandista: amarram-se, assim, as pontas da história cultural e religiosa dessa gente afro-brasileira. Alguns grupos preservam essa tradicional dança fazendo festas e eventos para trazer o povo para essas belíssimas demonstrações de cultura afro-descendente. As festanças mais comuns são as de datas fixas, como a do dia 13 de maio, a festa de São Benedito em Tietê, o sábado de Aleluia, ou em julho aniversário de Capivari. O batuque de umbigada tem uma espiritualidade muito grande. Assim como outras manifestações populares presentes na cultura brasileira, é um exemplo vivo de que as festas populares e religiosas traduzem a cultura popular , a linguagem do povo , tudo que vem dele e de sua alma. Em cada parte do Brasil o batuque recebe algumas variações tornando cada vez mais característico esse estilo que deu origem ao tão famoso samba. Essas celebrações reafirmam laços sociais e raízes que aproximam os homens, movimentam e resgatam lembranças e emoções."
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ANTONIO, M.M.; CHITOLINA, N.; SAMPAIO, T.M.V. Relação das festas e danças de batuque de umbigada na perpectiva do lazer e religião. São Paulo, 2008.
CAPIVARI, Prefeitura. São Paulo. 2009. Disponível em: https:// www.capivari.sp.gov.br/dadosgerais. Acesso em: 20 de agosto.2009.
______. Guia Histórico e Cultural. São Paulo. 2002
HALL, S. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. 1º. ed. Minas Gerais. Editora UFMG, 2003.
LOPES, J.; MORATO, K. Batuque de Umbigada. São Paulo.2008. Disponível em: https:// www.defesadastradicoes.blogspot.com. Acesso em: 17 de maio. 2009.
NOGUEIRA, C. S. Memória Familiar e Educação não-formal : Um olhar sobre a (re) construção de identidades. São Paulo, 2009.
SODRÉ, M. A verdade seduzida: por um conceito de cultura no Brasil. 3º. ed. Rio de Janeiro. Editora DP&A, 2005
TOLEDO, A.. Entrevista com “Dona” Anicide. São Paulo. 15 julho 2009.

Lundu de Earle
Lundu em habitação de escravos no Rio de Janeiro - Rugendas
Batuque de São Paulo. Rugendas
Entrudo de Rugendas
Congada, 1860. Foto de Arsenio Silva
Danse de la Guerre (Capoeira) de Rugendas. 1834
Berimbau de Rugendas
Festa de Nossa Senhora do Rosário em Minas Gerais. Rugendas
Batuque no Rio de Janeiro. Rugendas
Calundu de Luzia Pinta. Zacharias Wagener
Revisitando o calundu
Laura de Mello e Souza Universidade de São Paulo
" Luzia Pinta era uma calunduzeira, ou seja, praticava calundus na região próxima a Sabará, Minas Gerais, no final da década de 30 do século XVIII. Calundu era expressão freqüente nas fontes setecentistas que eu compulsara anos antes, quando fazia a pesquisa de mestrado sobre os homens livres pobres em Minas. Aparecia no singular ou no plural - calunduzes -, e qualificava seus praticantes como calunduzeiro e calunduzeira. Na época, achei que havia ainda a variação calundureiro para o praticante, e calundures para o rito, o que foi bastante convincente por Luiz Mott em artigo posterior. Na documentação que eu compulsara até então, constituída basicamente pelos assentos de visitas pastorais realizadas pelos bispados do Rio de Janeiro e de Mariana ao interior da capitania aurífera, a denominação calundu encobria práticas mágico-religiosas variadas, sempre envolvendo negros, freqüentemente referidas a danças, batuques, ajuntamentos mas, às vezes, denominando hábitos e usos que não pareciam ter qualquer articulação mais coerente a ponto de configurarem um rito: fervedouros com ervas, oferendas de comida a ídolos, confecção de pequenos embrulhos com ossos, cabelos, unhas. Com o processo de Luzia Pinta, tudo mudava: lá estavam descrições detalhadíssimas de um rito complexo, sem dúvida aparentado às religiões afro-brasileiras de hoje - o que, a meu ver, fazia dessa negra angolana uma antepassada de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Senhora ou Mãe Stela do Opô Afonjá, e de sua "casa" nas imediações de Sabará uma espécie de "axé" primordial. Pensei que punha as mãos num "proto- candomblé" - "Luzia, calundureira, foi antepassada cultural das mães-de-santo do Brasil contemporâneo", escrevi então 3- , sem questionar os modos que o trouxeram do século XVIII aos dias de hoje, sem problematizar a diversidade dos contextos ao longo do tempo, sem cogitar na ocorrência de acidentes de percurso, sem perceber que vê-lo dessa maneira trazia à baila a questão controversa da progressão e da continuidade, diminuindo ainda o poder transformador da História. "
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